Professora da Universidade Federal do MT fala sobre a necessidade de reorganização da instituição, em busca de eficiência e resultados de impacto para a sociedade

Por Rodolfo Haas

Em julho de 2020, a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) foi palco de um acontecimento raro: dois professores conservadores disputando uma mesma eleição para a reitoria da instituição. Alexandre Paulo Machado, docente da Faculdade de Medicina, e Danieli Artuzi Pes Backes, professora na Faculdade de Administração, ambos ligados ao movimento Docentes pela Liberdade (DPL), concorreram com o professor de Engenharia Elétrica Evandro Soares.

Evandro Soares recebeu mais votos na consulta pública, mas os nomes de Alexandre e Danieli fazem parte da lista tríplice enviada para Brasília, onde o Ministério da Educação e o presidente da República vão exercer a prerrogativa de escolher um dos candidatos.

A UFMT ficou famosa nacionalmente em julho de 2019, quando todos os espaços da universidade sofreram corte na energia elétrica por falta de pagamento das contas – mesmo com o MEC garantindo que o dinheiro havia sido repassado . Evandro Soares era então vice-reitor – assumiu o posto em março de 2020, quando a reitora Myriam Serra se afastou do cargo.

Danieli Artuzi Pes Backes tem 40 anos, leciona na UFMT desde 2012 e é doutora em Administração pela Universidade Nove de Julho, mestre em Agronegócios e Desenvolvimento Regional pela UFMT, onde também cursou a graduação em Administração. Na entrevista, ela explica sua candidatura e comenta suas propostas para a universidade.

[Em tempo: A conversa com a  professora faz parte de um esforço do movimento Docentes pela Liberdade (DPL) em trazer pensadores competentes e capazes de agregar análises relevantes para o cenário nacional. As opiniões expressas na entrevista não reproduzem, necessariamente, as posições do DPL ou Conexão Política.]

O que levou a senhora a se candidatar para a reitoria da universidade?

Quando eu fui aprovada no concurso da UFMT e tomei posse, fiquei decepcionada. Quando entrei como aluna, em 2004, a universidade era mais viva e ativa, havia nas pessoas um orgulho em pertencer à universidade. Quando entrei como professora, em 2012, vi todos desanimados, os alunos o tempo inteiro em seus celulares, com postura totalmente passiva. Achei muito estranho. Alguma coisa aconteceu nesses anos.

Com o passar do tempo, fiz  uma especialização em gestão pública, e depois o doutorado me possibilitou conhecer o ensino universitário público na França, onde a universidade consegue fazer a interação com os centros tecnológicos. Lá, a universidade está na crista da onda da pesquisa e tecnologia, ajudando a desenvolver soluções.

Durante o doutorado, percebi que os centros de pesquisa que estão no topo têm múltiplas fontes de financiamento, que não dependem  exclusivamente  da Capes e do CNPQ. Enquanto isso, na UFMT, existe muita burocracia, é tão difícil firmar parcerias e convênios que a maior parte dos pesquisadores acaba desistindo.

Mas a candidatura surgiu a partir do episódio do corte de luz. Comecei a desenvolver um projeto, e em torno dele surgiu um grupo de pessoas dispostas a mudar esse cenário.

Como a senhora avalia episódio do corte de luz na universidade, em 2019?

No meu curso, essa notícia pegou muito mal. Líamos comentários nos jornais: “Nossa, não existe curso de administração nessa universidade?” Ouvíamos também dos alunos: “A teoria é ótima, mas por que não é aplicada a nossa própria instituição?”. A greve do pessoal da limpeza, dos vigilantes, o corte de energia, esses acontecimentos em sequência começaram a despertar em mim o sentimento de que nós, da Administração, poderíamos estar sendo omissos.

Comecei então a trabalhar em um projeto de reestruturação para nossa instituição, a partir de tudo o que aprendemos no doutorado. Algumas pessoas foram gostando da ideia, até que chegou então a oportunidade de lançar um nome para a reitoria, a fim de  colocar em prática essas ideias. Algumas pessoas do grupo me chamaram para ser candidata, já que eu estava a frente do projeto.

Quais suas propostas para a reitoria da UFMT, caso seu nome seja escolhido?

Primeiro precisamos de um projeto de governança. Na investigação que fez das contas da UFMT, a Controladoria Geral da União concluiu que não existe um fluxo financeiro definido, não se tem clareza  do que se deve pagar primeiro, o que pagar depois. Temos hoje mais de 20 sistemas para reunir dados das mais diversas naturezas, e eles não conversam entre si. Isso se reflete na prestação de contas financeira. Como gerar indicadores adequados da instituição sem ter acesso as informações adequadas no tempo correto?

Na sequência, é preciso conversar com a sociedade. Nós fechamos as portas para as empresas, o terceiro setor, governo estadual, municipal e demais instituições externas. Temos múltiplos talentos dentro da universidade, mas que não são melhor aproveitados por falta de organização  e articulação com a sociedade. Vamos aprimorar o escritório de tecnologia e inovação para que ele atue de maneira efetiva na sociedade e estimule também o Empreendedorismo.

O outro ponto é trazer uma educação mais alinhada com as expectativas da sociedade e do nosso próprio alunato. Nossos estudantes chegam com uma bagagem digital muito grande e encontram um modelo conteudista, com predominância de aulas expositivas. Precisamos reformular, para ontem, esse cenário em que os alunos são espectadores passivos, precisamos desenvolver múltiplas competências para uma sociedade em transformação.

Suas propostas são difíceis de colocar em prática?

É um processo que vai desafiar os professores e os técnicos. Para isso, pretendemos motivar e capacitar. Vamos conscientizar as pessoas, mostrar para elas o quanto todos têm a ganhar com a reorganização, métricas definidas e objetivos claros dentro de um planejamento estratégico.