A TV Bahia divulgou, nesta quinta-feira (11), trechos do depoimento das empresas investigadas pela venda de 350 respiradores que não foram entregues ao Consórcio Nordeste. Cristiana Prestes, dona da Hempcare, apontou fragilidades no contrato. Paulo de Tarso, da Biogeoenergy, outra empresa envolvida nas investigações, também diz que não pretende devolver o dinheiro.

Leia também: Bruno Dauster deixou Casa Civil após ser citado por dona de empresa

No inquérito, Cristiana admite que a Hempcare não fabrica ventiladores pulmonares. Ela diz que passou a fazer parte das negociações a partir de um grupo de mensagens por aplicativo, formado por empresários. Toda a negociação foi feita com o secretário da Casa Civil, Bruno Dauster. Ela disse que o secretário-executivo do Consórcio, Carlos Gabas, teria dito que os contatos deveriam ser feitos com Dauster.

Ela disse que, no entendimento dela, “o Consórcio Nordeste teve pouca autonomia no processo de compra dos ventiladores pulmonares, ficando responsável apenas, pelo pagamento, após formalização do contrato”.  O governador Rui Costa preside o consórcio, formado pelos nove estados da região.

Cristiana diz que, depois que o dinheiro foi pago pelo consórcio, fez um contato com uma fabricante chinesa para a compra dos respiradores. Para fazer esse contato, segundo ela, Bruno Dauster teria indicado o nome do empresário Carlos Kerbes como dono de uma empresa intermediária. Segundo ela, Carlos é amigo pessoal de Bruno Dauster, sendo sócio do irmão do ex-secretário da Casa Civil. Ele teria recebido R$ 400 mil para fazer essa intermediação.

O advogado de Kerbes, Marinho Soares, foi procurado pela TV Bahia. Segundo ele, ele não é sócio do irmão de Dauster. São apenas amigos. Ele disse também que Kerbes confirmou que recebeu os R$ 400 mil da dona da Hempcare, mas esse valor seria para outro negócio: Kerbes seria intermediário da possível compra da Hempcare de testes rápidos para Covid-19 que viriam da China. O valor, segundo ele, nada tem a ver com a compra dos respiradores.

“Que fique claro que o contrato dela com Kerbes se deu no dia 22 de abril, ou seja, posterior a celebração do contrato dela com o Consórcio Nordeste”, declarou o advogado, para a reportagem.

Ainda no depoimento, a empresária diz que Bruno Dauster teria sugerido um aditivo no contrato, já prevendo um aumento no preço das máquinas. Cristiana teria dito que “não iria estuprar o Governo dessa maneira”. E sugeriu a compra de máquinas nacionais junto a empresa Biogeoenergy. Cristiana disse que pagou R$ 24 milhões para a a produção de 300 respiradores, mas depois foi informada por Dauster que os equipamentos não foram aprovados.

Paulo de Tarso disse para a TV Bahia que não vai devolver dinheiro para o Consórcio Nordeste, porque não tem negócio com o grupo. “Não tenho negócio com o Consórcio Nordeste. Tenho que entregar respiradores. E os respiradores tenho que entregá-los para o Governo do Estado, que se recusou a receber”, destacou. Ele também disse que viu irregularidades na atuação da Hempcare e que denunciou a situação para Dauster.

Em nota enviada para a emissora, Dauster disse que jamais praticou ou propôs “qualquer ato que gerasse prejuízo para o Estado”. “No caso que é objeto desta investigação, sempre busquei o melhor negócio para o Estado e para os cofres públicos. Portanto, não são verdadeiras as interferências que estão sendo veiculadas ao meu respeito através da imprensa”, declarou, afirmando ainda que não teve acesso aos depoimentos e que, por isso, não dará entrevistas neste momento. Jorio Dauster, irmão de Bruno Dauster, afirma que não teve qualquer informação da participação de Carlos Kerbes nesse negócio. A defesa de Cristiana Prestes disse que ela vai falar no momento oportuno. Carlos Gabas afirma que não teve participação na decisão e na negociação da compra dos respiradores.

Leia também: Oposição promete batalha contra Consórcio do Nordeste após compra de respiradores