Medo da busca por atendimento médico na pandemia aumenta número de paradas cardíacas fora do hospital

A despeito da pandemia da Covid-19, médicos reforçam a necessidade de manter o tratamento de doenças como a hipertensão, o que aumenta, por exemplo, o risco de infarto e de acidente vascular cerebral (AVC). No isolamento social, pacientes estão deixando de fazer o acompanhamento ou retardando a busca por atendimento médico, o que tem reduzido o número de hospitalizações por infarto e aumentado o volume de tratamentos tardios e a ocorrência de paradas cardíacas fora do hospital.

O alerta é do cardiologista Eduardo Darzé, diretor Médico e de Qualidade do Hospital Cárdio Pulmonar diante da proximidade do Dia Mundial de Combate à Hipertensão – 17 de maio. “As pessoas precisam de cuidados e atenção médica regular, pois infartos e AVCs continuam acontecendo e a busca tardia por tratamento ou atendimento de emergência pode levar a quadros graves”, diz o especialista.

Darzé explica que a hipertensão é frequente em pacientes hospitalizados com Covid-19, mas há controvérsias se, de fato, contribui para o risco de desenvolvimento da forma grave da Covid-19. “As pessoas com maior probabilidade de ter hipertensão também têm maior chance de ter idade avançada e outros problemas mais graves de saúde e, portanto, maior chance de adoecer gravemente por qualquer problema, inclusive Covid-19”, completa o médico. 

Segundo o cardiologista, merecem atenção todas as doenças cardiovasculares que, de alguma forma, diminuem a capacidade de o indivíduo enfrentar uma patologia grave. “A disfunção do coração e a insuficiência cardíaca são exemplos claros, assim como a obstrução das artérias do coração (doença coronária), história prévia de infarto ou AVC também”, explica.

Hipertensão
Os cuidados com a hipertensão durante a pandemia são os mesmos, como explica Eduardo Darzé: usar os medicamentos de forma regular e ininterrupta, evitar excesso de sal, de álcool e de peso, assim como controlar a pressão. A suspensão ou troca de anti-hipertensivos sem a orientação do médico podem trazer complicações. 

“Se sua pressão estava bem controlada, a cada 2-3 meses é importante realizar um conjunto de medidas da pressão e enviar para o médico, pois elevações da pressão são frequentemente assintomáticas. Às vezes, alguns pacientes podem sentir uma dor de cabeça localizada tipicamente na nuca e isso pode ser um indicativo de que a pressão não está bem”, orienta. 

Além de aumentar o risco de infarto e AVC, a hipertensão pode levar à insuficiência cardíaca, insuficiência renal (com necessidade de diálises) e aneurismas. “Esses problemas acontecem quando a hipertensão permanece mal controlada por muitos meses ou anos. Quando bem controlada, os riscos se tornam muito mais baixos”, pondera. 

Segundo o médico, uma pressão elevada raramente deve ser tratada como uma emergência com necessidade de hospitalização. “Pressões alteradas devem ser confirmadas com múltiplas medidas ao longo de dias e comunicadas ao médico, que fará os ajustes nas medicações para o controle da pressão”, completa.

Medicamentos x coronavírus
O cardiologista explica que alguns medicamentos para hipertensão e anti-inflamatórios aumentam os níveis de uma enzima conhecida como ACE2, utilizada pelo coronavírus para entrar nas células dos pulmões e coração. Essa observação já havia sido feita em epidemias de outros coronavírus causadores de infecção pulmonar grave. 

“Não há, no entanto, qualquer evidência de que o uso desses medicamentos aumente o risco de infecção ou a gravidade da Covid-19. O artigo publicado pela centenária revista científica britânica The Lancet, e frequentemente compartilhado em redes sociais, não traz qualquer resultado de pesquisas, apenas levanta uma questão sobre essa possível associação entre o uso dos medicamentos e infecções por coronavírus”, desmistifica.

O cardiologista Eduardo Darzé completa dizendo que três estudos recentes com milhares de pacientes não demonstraram qualquer associação entre esses importantes anti-hipertensivos e o risco de aquisição da Covid-19 ou desenvolvimento de formas graves da doença.  

“Anti-inflamatórios como ibuprofeno são frequentemente utilizados para febre ou dor, mas todas as sociedades médicas no mundo sempre recomendaram parcimônia e cuidado no uso, pois podem piorar a função dos rins e do coração, descontrolar a pressão arterial e causar sangramentos”, reforça.