COLUNA | Abaixo o lacracês!

O “lacracês” é a linguagem típica daqueles que querem ter sempre a última palavra em tudo, com pretensões de superioridade e pouco ou nenhum conteúdo para tanto. Em verdade, o seu discurso não passa de verborréia de pessoas mal-educadas que, em geral, não sabem respeitar opiniões divergentes, a sabedoria dos mais velhos ou, simplesmente, a hora de calar. Dito isto, tem-se o perfil psicológico desses indivíduos: foram crianças mimadas, que não receberam limites ou foram ensinadas a respeitar regras, razão pela qual sempre acreditam que o mundo gira segundo as suas próprias.

São narcisistas, pois se inebriam com a mera expectativa de que causarão algum embaraço, ainda que momentâneo ou sem maiores repercussões para o “opoente”. Sim, assim comumente se posicionam, como se em uma batalha que deve ser vencida a todo custo. O outro precisa ser derrotado! É preciso tentar trazer um pouco de significado a esta vida… Acreditem: não te deixarão em paz até que destilem a frase lacradora final! São chatos, insistente, pernósticos e igualmente debochados…

Enfim, são gente pobre, muito pobre de espírito. E nisso são imbatíveis!

Quando me deparo com um destes seres, me vem à mente aquela tradicional cena dos quadrinhos infantis na qual um diabinho sopra ao ouvido do personagem a famosa frase: – Vai lá, segue adiante, você vai conseguir! E, nesse caso, não há um anjinho a soprar-lhe alguma consciência no ouvido oposto… O resultado dessa estória todos nós já sabemos.

É, sobretudo, o retrato de uma geração que acredita que pode tudo, pelo menos dizer tudo, do jeito que lhe convier, sem se preocupar com o mal que poderá causar ao interlocutor ou a quem fora atingido por suas palavras, por meio direto ou indireto. Somente eles mesmos ou aqueles com quociente de inteligência (QI) análogo acham graça nas impropriedades exaladas, todos inconsequentes por excelência. E estas não são meramente ditas, são vomitadas e, por vezes, vociferadas. Porque não basta dizê-las, tem que “causar” e, se possível, amedrontar quem as escutar.

Exemplos não nos faltam, verdade?

São apenas pobres coitados que precisam, ainda que de modo muito efêmero, se sentir superiores. Não porque possam assumir algum brilho real e duradouro, mas por diminuírem o outro. E não pensem que serão capazes de sentir remorsos ou de pedir desculpas a quem quer que seja, mesmo depois que comprovado que possam ter sido injustos, agressivos, maledicentes ou coisas do gênero, o que seria de se esperar de pessoas com algum rasgo de dignidade ou altivez. Muito pelo contrário, sobra-lhes soberba aos borbotões. Por isso, é tão comum não reconhecerem o outro como sujeito de direitos, cujos sentimentos pouco importam.

– Já disse mesmo! Mereceu! E daí… Pedir desculpas, por quê? – são expressões recorrentes quando questionados acerca de preocupações com o impacto de suas falas. Têm um absurdo, incomensurável e irretratável orgulho de deixarem transparecer que não só renegam outras possibilidades de comportamento, bem como por demonstrar um limitadíssimo domínio da língua e toda a pequenez de sua condição humana.

Ao que tudo indica, é contagioso. O mau exemplo incentiva e dá origem a novos “lacradores”, ansiosos por experimentar as mesmas sensações daqueles a quem passam a imitar, acredito que até mesmo com um enrustido desejo de superá-los. Por isso, muito embora muitas vezes sejam casos perdidos, sem a mínima possibilidade de retorno à civilidade, é necessário, sim, responder-lhes à altura. Mostrar-lhes que não passam de seres de absoluta irrelevância na escala evolutiva da humanidade é um imenso serviço a eles mesmos e à civilização. É preciso interromper essa replicação de ervas daninhas. Ferir-lhes mortalmente o imenso ego poderá, contudo, resultar reações em duas direções: ou a abrupta consciência de sua real inferioridade e o recolhimento ao ostracismo necessário, por um lado, ou, de outro, despertar-lhes de si o ódio mortal dos inconformados, sedentos de vingança e, portanto, pela próxima lacração. Afinal, não podem ficar por baixo jamais!

Bem, enquanto não criada e aplicada maciçamente a vacina, embora saibamos desde há muito alguns dos componentes necessários para tanto (presença da família, restauração de valores como o respeito e a empatia, bem como a imposição de limites e de responsabilidades), só me resta relembrar:

– Abaixo o lacracês!