CHINA | Dona de editora chinesa é presa e está sob tensão considerável após repetidos interrogatórios, diz advogado

Um advogado de defesa que atua em nome da editora chinesa, Geng Xiaonan – presa no mês passado – se reuniu com ela após várias tentativas fracassadas. Geng foi detida sob suspeita de dirigir uma “operação comercial ilegal”, depois de tornar público seu apoio ao ex-acadêmico da Universidade de Tsinghua, Xu Zhangrun, que foi preso por uma semana em julho, depois de pedir por reformas políticas e criticar o governo de Xi Jinping.

O advogado de Geng, Shang Baojun, se encontrou com ela no Centro de Detenção do Distrito Haidian, em Pequim, na quinta-feira (24), relatando que ela parecia cansada e sob tensão considerável após repetidos interrogatórios.

“Ela passou por mais de uma dúzia de interrogatórios”, disse Shang. “Ela tem sido interrogada quase todos os dias desde que foi presa.”

“O último interrogatório foi ontem [29 de setembro] à noite”, disse o advogado de defesa, Shang Baojun, a Radio Free Asia (RFA) nesta quarta-feira (30).

Baojun disse que Geng parecia “abatida”, mas, fora isso, estava razoavelmente bem de saúde.

Ele disse que a polícia chinesa está usando a publicação do casal de cerca de 8.000 livros de nutrição e culinária para alegar que sua editora ‘Ruiya Books’ estava operando “ilegalmente” desde o início. Mas o advogado explicou que Geng diz ser alvo por motivos políticos.

“Ela sentiu que estava em perigo em julho, então, ela contatou o escritório de advocacia Beijing Mo Shaoping e assinou um acordo de instrução conosco”, disse Shang.

O advogado disse que as autoridades do governo comunista chinês estão usando as restrições impostas por causa do coronavírus para tornar a vida muito mais difícil para os advogados que buscam reuniões com seus clientes detidos.

“Agora, por causa da pandemia, os advogados precisam chegar lá na primeira hora da manhã para conseguir uma reunião”, disse Shang à RFA, acrescentando que existe um sistema online limitado de ingressos, operando com uma política de ordem de chegada.

O professor de sociologia da Universidade Tsinghua, Guo Yuhua, disse que a reunião de quarta-feira foi a primeira vez que ele teve permissão para se encontrar com Geng, desde sua detenção em 9 de setembro.

“Os advogados Shang Baojun e Qu Zhenhong haviam tentado, sem sucesso, se encontrar com Geng em várias ocasiões antes disso”, disse Guo à RFA.

“No início, eles foram ao centro de detenção e pediram uma reunião, mas não foram permitidos”, disse ele. “Por causa da pandemia, o número de pessoas permitidas está sendo limitado a 12 pessoas por dia.”

Comoção por apoio recebido

Baojun disse que Geng ficou visivelmente comovida e foi às lágrimas com o nível de apoio internacional recebido, após sua detenção ao lado de seu marido e parceiro de negócios, Qin Zhen.

“Ela ficou muito emocionada quando soube disso[do apoio]”, disse ele, acrescentando que ela havia expressado sua gratidão à família e aos apoiadores. “Ela foi às lágrimas mais de uma vez.”

Caso Xu Zhangrun

As autoridades em Pequim prenderam o ex-acadêmico da Universidade de Tsinghua, Xu Zhangrun, na manhã de 6 de julho, depois que ele pediu online por reformas políticas. As autoridades chinesas alegarão que o motivo de sua prisão foi por ele “procurar prostitutas”.

Ele foi libertado uma semana depois, mas depois disse à mídia que havia sido demitido de seu cargo de professor e sujeito a sanções públicas por “corrupção moral” pela faculdade de direito da Universidade de Tsinghua.

As acusações de “procurar prostitutas” já foram usadas anteriormente pelas autoridades chinesas para atingir críticos e ativistas pacíficos, ou qualquer pessoa que entre em conflito com as autoridades locais e interesses do governo do Partido Comunista Chinês. Xu Zhangrun entrou com uma ação judicial e nega as acusações.

Amigos disseram na época da detenção de Xu que isso poderia estar relacionado à publicação de um de seus livros em Nova York no mês passado, uma coleção de alguns de seus textos e artigos mais polêmicos.

Xu recentemente também criticou as autoridades municipais de Pequim por demolirem uma vila de artistas e disse que o ditador Xi Jinping está levando a China a “um beco sem saída”.

Em um texto de 10.000 palavras datado de 21 de maio de 2020, Xu descreveu a China como isolada da “civilização global”, que ‘desinicizaria’ na esteira da pandemia do coronavírus.

O texto de Xu apelava para que os líderes chineses fossem politicamente responsáveis, pela libertação de prisioneiros de consciência, incluindo jornalistas e advogados dos direitos humanos, e pelo fim do combate político a acadêmicos.

Xu também pediu que as emendas aprovadas pelo Congresso Nacional do Povo da China (NPC) em 2018 sejam revogadas, e pelo fim dos gastos internacionais maciços para aumentar a influência da China no exterior, bem como por uma legislação exigindo que os funcionários publiquem detalhes de seus ativos e interesses financeiros.