Brasileira que cresceu e morou 15 anos na China revela como é a vida por trás das muralhas do país comunista

A jovem brasileira de 26 anos, Karina Cunha, nasceu em Minas Gerais e no ano de 1997, seus pais, ela e sua irmã mais nova se mudaram para a China, onde 7 meses depois, sua terceira irmã nasceu. Karina e sua família viveram naquele país até 2012. Hoje, Karina é casada e mora na cidade de Fortaleza-CE, onde trabalha como tradutora e professora de Mandarim. Com um Chinês fluente, a jovem já realizou vários projetos de tradução para diferentes ramos, desde prefeituras, ONGs e empresas privadas até para jogos de vídeo game.

Em 2017, ao perceber que existia pouquíssimo material relacionado à língua e cultura chinesa em Português na internet, e o pouco que tinha não abordava assuntos que, ao olhar de Karina, eram interessantes e importantes, ela criou o canal de YouTube ‘Dominando o Mandarim’. Em seu canal, além dela ensinar o Chinês, Karina compartilha da cultura e culinária chinesas e fala, com muito humor, das inúmeras situações que vivenciou, contando muitas vezes com a participação de suas irmãs e de seu pai, que tornam os vídeos imensamente divertidos, arrancando gargalhadas dos telespectadores. Mas ela também aborda assuntos sérios que envolvem decisões políticas que afetam a qualidade de vida do povo chinês, que muitas vezes têm seus direitos humanos fundamentais violados.

Karina, os pais e uma das irmãs mais nova comendo em um restaurante local, em 1997.

Mudança para a China

O motivo da ida da família em 1997 para a China foi o trabalho de seus pais. A família morou primeiramente em Macau, região administrativa especial da China, até agosto de 2001. Então, eles se mudaram para Cantão (Guangzhou), a 145Km de Macau, onde permaneceram por 1 ano. Em agosto de 2002, eles se mudaram novamente, para Kunming, cidade onde se estabeleceram até 2012.

“A última foi a cidade que eu mais gostei, me adaptei rápido, tínhamos muitos amigos brasileiros. O estilo de vida era mais simples, o custo de vida mais barato, nos adaptamos bem à escola local”, disse Karina.

Em Macau, a língua oficial é o Cantonês. Em poucos meses Karina e suas irmãs se tornaram fluentes no idioma. Quando a família se mudou para Cantão, todos conseguiram se comunicar pois o dialeto local, falado nas casas, feiras e na rua era também o Cantonês.

“Naquele ano, aprendemos o Mandarim, língua oficial utilizada em toda a China, e 1 ano depois, quando chegamos em Kunming, já nos comunicávamos muito bem em Mandarim”, disse Karina.

Karina na escola chinesa em Macau.

O povo chinês

Nos primeiros anos, a família conseguiu desenvolver um bom relacionamento com os vizinhos e até fez amizade com alguns moradores do prédio em que viviam. No entanto, o relacionamento nem sempre foi fácil em outros lugares por onde passaram.

“Os vizinhos sabiam que éramos brasileiros e os chineses simpatizavam conosco. Nos últimos anos em Kunming, moramos em um condomínio de casas, o vizinho do lado não gostava muito de nós, nunca entendemos o porquê, ele era agressivo dentro e fora de casa, reclamava por razões fúteis. Uma vez foi reclamar que estávamos fazendo muito barulho arrastando cadeiras; para falar a verdade, acho que ele estava brigado com a esposa e quis descontar em alguém. O pior foi um dia que, ao amanhecer, percebemos que o portão da nossa garagem estava pichado. Mas o vizinho esqueceu de fechar o portão da garagem dele, onde estavam guardadas a tinta e pincéis que ele havia acabado de usar na nossa garagem”, contou Karina.

De acordo com a vivência de Karina nesses 15 anos no país, ela pode afirmar que os chineses são um povo muito prestativo, amigável e, em geral, não são desconfiados; são muito trabalhadores e pontuais, fazem tudo o que podem e mais um pouco, quando necessário.

“Quando você se torna amigo deles, eles fazem tudo por você. Esse processo pode demorar muito ou nunca acontecer, mas, se acontecer, você terá amigos para toda a vida”, disse Karina.

Por outro lado, segundo a brasileira, os chineses defendem os seus com unhas e dentes irracionalmente se necessário.

“Para eles, os fins justificam os meios. Por isso, mesmo tendo a lealdade e a verdade como pilares culturais, eles vendem gato por lebre, pois o importante é produzir e enriquecer. Com a abertura comercial da China em 1978, todos viram que dinheiro podia abrir muitas portas e, hoje, isso está acima de muitas amizades e da ética. É muito fácil ganhar dinheiro na China. Hoje, os chineses são ricos, mas em muitos casos a um alto preço, aquele que dinheiro não compra”, explicou Karina.

Karina disse que, com os chineses, ela aprendeu a ser prática e pensar de forma prática, sem burocracias.

“Aprendi a dar o meu melhor para resolver um problema. Como tudo na China é bem ensaiado (apresentações, danças, músicas) e os chineses são muito exigentes, trouxe isso para minha vida. Eu não me atrevo a mostrar algum lado meu que eu não esteja confiante”, contou a jovem.

Para um chinês em geral, é ensinado e assimilado que o mais importante na vida é respeitar o país e o Partido Comunista Chinês. Eles também dão muito valor aos idosos, pais, avós e professores, observou Karina.

“Ter um bom trabalho com um bom salário; cuidar dos idosos da família – isso inclui todos os gastos do dia a dia, saúde, até casar para poder dar um neto aos pais; não perder face [honra] nem envergonhar a família”, apontou Karina a respeito das prioridades de vida do povo chinês.

Ela explicou que na China há um tipo de relacionamento chamado “guanxi”, que são amizades com interesse mútuo.

“Você tem algo que pode me oferecer e eu tenho algo que posso te oferecer; esse é o tipo de amizade que mais se almeja e que abre muitas portas para um chinês”, explicou Karina.

Karina na praça da Paz Celestial, em Pequim (2011).

Pequim

A jovem disse que Pequim foi a cidade que mais gostou na China. Ela visitou a capital chinesa pela primeira vez em 2011.

“Os monumentos, que eu até então só tinha visto pela TV, estavam diante dos meus olhos e eles eram encantadores, quase mágicos. As ruelas que nos levavam a lugares inusitados estavam espalhadas por toda a cidade. Num minuto, estávamos de frente a um prédio com arquitetura moderna única e alguns minutos depois, já estávamos em um beco com construções centenárias e casinhas que abrigavam moradores há dezenas de anos; muitas dessas casas tinham portas com um metro e meio de altura, um telhado tipicamente chinês e ficavam em ruas estreitas que por muito tempo só passavam riquixás [meio de transporte de tração humana em que uma pessoa puxa uma carroça de duas rodas onde acomodam-se mais uma ou duas pessoas”, disse Karina.

Pequim foi uma cidade que marcou para sempre a vida de Karina por lhe proporcionar muitas oportunidades artísticas. A jovem foi agraciada por Deus com muitos talentos; além de dominar o Mandarim, ela é dona de uma voz soprano afinadíssima, sabe atuar no palco, dançar e recitar poesias.

“Desde 2010, eu tive oportunidade de participar de eventos onde pude cantar, atuar, etc… Comecei cantando na faculdade, participei de apresentações na TV da nossa província, até que em 2011, fui para Pequim pela primeira vez para participar de um programa ‘Raul Gil chinês’. Depois desse, participei de alguns outros e por diversas vezes apareci na CCTV (Canais totalmente controlados pelo governo), participei de concurso de Chinês e fiquei em 10º lugar numa competição com mais e 1.000 competidores que moravam em diversas cidades da China. Tudo isso aconteceu em Pequim, e essa é mais uma das razões pela qual amo essa cidade profundamente”, contou Karina.

Karina cantando na CCTV, em 2011.

Dançando na CCTV: “Os jurados disseram que eu estava muito gorda nesse dia, eu não estava de acordo com o padrões de beleza locais”.

Escola na China

Karina disse que na China há escolas públicas e particulares. Segundo a jovem, as escolas públicas são melhores, e também são pagas, apesar do valor ser bem mais acessível do que de uma escola privada.

“Pagávamos 300 RMB [252 reais] por semestre para estudar em uma escola pública. As particulares são mais caras e não há limite de valor. Na escola particular que estudamos, pagávamos 2500 RMB [2092 reais] por semestre”, disse Karina.

Na época, a família teve que optar por colocar as filhas em uma escola particular, pois o governo chinês havia começado a dificultar o acesso a escolas públicas para estrangeiros na província onde moravam.

“As escolas particulares não eram tão bem vistas, pois elas serviam como ‘quebra galho’ para alunos que não tinham direito de estudar nas escolas públicas. Na China, se você nasceu na cidade X, você tem direito a estudar em escola pública na cidade X, ou se você não tem a carteirinha do filho único você também não tem direito de estudar nas públicas, então esse público recorria às privadas”, explicou Karina.

“Na China não há nada de graça. A versão ‘pública’ pode até ser mais barata, mas todos tem que pagar, inclusive na saúde pública”, acrescentou.

Karina explicou que o sistema de ensino na China é dividido em 6 anos de Ensino Fundamental, 3 anos de Ensino Médio, 3 anos de Colegial e 4 a 6 anos de Ensino Superior (faculdade).

“O ensino é obrigatório até o aluno finalizar o Ensino Médio. As crianças chinesas entram na escola com 6 anos de idade. Em todo o país é praticado o Ensino Integral: as crianças entram aproximadamente às 8h e voltam para casa às 17h”, explicou Karina.

A jovem brasileira disse que na China os pais participam da vida acadêmica dos filhos, a começar pelo dever de casa que os filhos levam para casa, nas participações em reuniões pelo menos 2 vezes por ano e em datas comemorativas, eventos e apresentações escolares das crianças.

Quanto à “rigidez” dos professores, Karina presenciou várias situações em escolas distintas e com professores diferentes.

“Na escola em Cantão, alunos que tiravam notas abaixo de 90% eram chamados para a frente da turma e levavam beliscões na orelha, chutes em várias partes do corpo, eram humilhados pelos professores. Eles acreditavam que a melhor forma de ajudar alguém a crescer era através da humilhação: ‘se alguém passar vergonha essa pessoa não vai mais realizar aquele ato falho’. Em outra escola, tínhamos professores que batiam na mão dos alunos com réguas de metal toda vez que o aluno respondia uma pergunta errada ou atrasava para entregar um exercício ou dever de casa. Uma vez, todos da sala, exceto os estrangeiros, levaram uma reguada com força porque o professor havia encontrado um adesivo de 2 cm colado no quadro negro”, contou Karina.

Na China, as escolas investem muito no ensino da arte. De acordo com a brasileira, os alunos são incentivados a aprender artes, música, caligrafia, instrumentos musicais e muito mais.

“Muitas crianças passam o fim de semana todo fazendo aulas extracurriculares. Muitas vezes, na escola há opções pagando por fora. Eu e minhas irmãs fizemos aulas de canto e piano com professoras da nossa escola. Fora da escola, também fazíamos aula de piano, canto, artes, patins, natação, computação… Isso não só enriquece o currículo das crianças, mas também pode servir como critério de desempate em qualquer situação que você imaginar. Em um concurso ou competição, se as notas são iguais para dois ou mais participantes, o critério de desempate pode ser desde a altura dos participantes à caligrafia, os instrumentos que cada um toca, quantos a idiomas estrangeiros que eles sabem. Eu fui eliminada de um concurso de Chinês para estrangeiros porque minha letra era a mais feia”, disse Karina.

A respeito da doutrinação comunista nas escolas chinesas, Karina confessa que os alunos, inclusive os estrangeiros, eram obrigados a participar de eventos cantando músicas que exaltavam o Partido Comunista Chinês e de datas comemorativas.

“A diretora da escola fez questão de me chamar para uma competição em que eu tive que recitar a história de uma jovem chinesa que morreu na mão dos inimigos por não ter revelado onde seus companheiros do Exército Vermelho se escondiam”, disse Karina.

Competição onde Karina recitou a história da garota morta pelos inimigos do comunismo.

A brasileira revela que ela e os outros alunos eram obrigados a estudar sobre o líder comunista chinês Mao Tsé-Tung e poesias escritas por ele. Além disso, Karina contou que os alunos eram incentivados – e todos faziam – a utilizar um lenço vermelho e um broche com o símbolo do Partido Comunista Chinês.

“As crianças chineses passam por uma cerimônia para ter direito de usar esse lenço vermelho; era um orgulho para elas. Eu pensava que o lenço apenas fazia parte do uniforme, comprei um e passei a usá-lo, até que um ano depois, minha irmã participou da tal cerimônia e entendi que o lenço deveria ser merecido”, contou Karina.

“Se alguém usava o lenço, ele passava a ser visto com respeito pelos colegas e todos queriam o mesmo respeito”, acrescentou.

Karina de uniforme e com o lenço vermelho na escola chinesa em 2002.

Antes de ingressarem na faculdade, Karina contou que todos os alunos chineses eram obrigados a participar de um treinamento intensivo de doutrinação comunista. Em algumas cidades, esse treinamento também acontecia uma semana antes do início de um novo ano letivo ainda no ensino médio e colegial.

“Nesses acampamentos eles estudavam os ensinamentos do Partido [Comunista Chinês], aprendiam a se esconder, se arrastar na lama, a atirar, dormiam pouquíssimas horas e até faziam exercícios nus na presença de dezenas de outros alunos do mesmo sexo. Essa era uma época temida por muitos chineses. O discurso dos líderes era: ‘se estourar uma guerra, precisamos que todos estejam preparados’. Não sei se era sensacionalismo, mas isso parecia acalmar os ânimos dos alunos”, contou Karina.

Na faculdade, Karina disse que há uma matéria curricular, “Ensinamentos de Mao Tsé-Tung”, que é obrigatória para todos os estudantes chineses.

O que na época, era apenas “mais uma matéria” para a pequena Karina, olhando com olhos de hoje, a jovem brasileira consegue distinguir o quanto as crianças na China recebem de ensinamento doutrinário dentro das escolas.

“Estudávamos sobre como o Tibete sempre fez parte da China, sobre como as ilhas do Sul da China sempre pertenceram à China, inclusive Taiwan. Aprendemos sobre ataques de países estrangeiros sofridos pela China; como os japoneses torturaram e mataram milhares de chineses; como países estrangeiros saquearam tesouros na China; como a China tinha passado por fome e tragédia durante o “Grande Salto Adiante”, mas que o regime tinha tirado a população daquele estado e instaurado a união deles e que o governo serviria a população. Nem tudo estava nos livros, muitos professores colocavam seu toque e davam algumas enfeitadas na história”, revelou Karina.

Segundo Karina, o governo chinês exerce um  grande controle sobre a vida das pessoas no país.

“Fiquei assustada ao descobrir o tamanho do controle que o governo exercia sobre os alunos. Nos meus primeiros anos na faculdade, fomos avisados pelos professores que a polícia havia ido na administração da faculdade reportar que haviam quatro alunos assistindo conteúdo adulto e que eles sabiam exatamente quem eram os alunos. A Universidade, sem saber quem eram os alunos, tinha alguns dias para ‘resolver esta situação’, antes que a polícia retornasse e levasse os quatro alunos presos. O controle era tão grande que, entre mais de 20.000 alunos da minha universidade, eles encontraram os quatro que estavam cometendo esse ‘crime’”, contou a jovem brasileira.

Pouco antes da formatura de Karina, muitos alunos que ainda não tinham se filiado ao Partido Comunista Chinês começavam a se apressar em fazê-lo. Ela explicou que como filiados ao partido, os estudantes conseguiriam melhores vagas de emprego, teriam vantagem sobre outros candidatos e isso poderia até ajudá-los a crescer profissionalmente nas empresas.

“Conheci vários colegas que, embora não concordassem, não viam outro atalho e acabavam se filiando”, disse Karina.

Perseguição e controle de minorias

Ao todo há 56 povos que vivem na China, sendo que 90% do povo chinês é composto pelo povo “Han” e 10% pelos outros 55. Apesar da China tentar por um lado ao máximo preservar sua cultura, estilo de vida, alimentação, religião e língua, do outro, o governo comunista chinês busca unificar o povo, com uma só língua (Mandarim) e com uma só cultura, segundo explicações de Karina.

“Existem regiões onde moram muitos desses povos, um exemplo é a região autônoma Mongólia Interior, ao norte do país e ao sul da Mongólia. Lá, vivem mais de 5 milhões de mongóis chineses e quase 20 milhões de pessoas de outras etnias, em sua grande maioria o povo “Han”. Os mongóis gostam de um estilo de vida livre, gostam de cavalgar, criar gado, caçar, morar em tendas arredondadas tipicamente culturais. Eles prezam por manter sua cultura e seu estilo de vida; muitos querem independência e não se consideram chineses. Essa província é uma área de grande tensão. O governo [chinês] havia feito alguns acordos com eles, um deles foi permitir que os filhos de mongóis frequentem escolas próprias, com a língua própria. Entretanto, o governo está aos poucos voltando atrás e os mongóis estão perdendo sua identidade. Muitos não têm permissão para sair de lá, não têm para onde ir, a não ser onde o governo designou para eles”, disse Karina.

Outra região sensível é Xinjiang, uma região autônoma chinesa onde vivem muitos povos originários da Ásia Central. Lá vivem os uigures, que são mais de 10 milhões ao todo oficialmente. No início do século passado, eles chegaram a declarar independência, mas em 1949, a região passou a ser controlada pela China comunista. Com isso, os conflitos não são poucos e a tensão no ar é constante, observou Karina.

“Todos são vistos pelo Estado como ‘o povo chinês’. E é isso que gera incômodo em alguns que não se consideram chineses, da mesma forma que a China considera que ela tem 23 províncias (considerando o Taiwan) e quase todos os países e organizações internacionais consideram que são apenas 22”, acrescentou.

Karina afirma que o controle da população chinesa acontece em todo o país, mas a intensidade varia muito de acordo com a região. Há algumas regiões consideradas mais sensíveis que outras, mas não é o tamanho da cidade que vai determinar isso, de acordo com a brasileira.

“Para evitar protestos e manifestações como ocorreu na Praça da Paz Celestial em 1989, o monitoramento e controle são intensos em certas regiões. Em cidades com povos que querem a independência o controle também é grande. Temos como exemplo o interior do Tibete. Não é possível se aventurar e dirigir pelas montanhas da região, a não ser que você esteja com um guia registrado te acompanhando durante o trajeto todo. Se por algum instante você resolver fazer um protesto pacífico segurando alguma placa ou gravar um vídeo apoiando a independência do Tibete, torça para que o castigo seja apenas uma sessão interrogatória e um pé na bunda”, disse Karina.

Ela conheceu estrangeiros que moravam em Xinjiang e eles eram frequentemente seguidos por agentes, seus lixos eram vasculhados de tempos em tempos.

“Chegou um tempo que quando saíam de casa já deixavam o celular em casa ou tiravam o SIM card e a bateria para não serem encontrados. Eles não estavam fazendo nada de errado, apenas vivendo na província errada”, contou Karina.

Na cidade onde ela e a família moravam, o controle era mais discreto. Karina disse que uma vez, o Departamento de Polícia local “convidou” vários estrangeiros da cidade para conhecer as facilidades de monitoramento.

“Meu pai foi um dos a visitar o local. Os policiais levaram todos a uma sala com telas de filmagens em tempo real das milhares de câmeras espalhadas pela cidade. As câmeras capturam detalhes de tudo. Ao final da visita, os policiais falaram que tinham convidado os estrangeiros para verem como a cidade era segura e como eles poderiam se sentir seguros, pois com todo aquele monitoramento, um ladrão, por exemplo, poderia ser encontrado em questão de minutos. Por fim os policiais se ofereceram para ‘ajudar’ sempre que os estrangeiros precisassem. Todos entenderam a mensagem nas entrelinhas”, contou Karina.

Outra vez, Karina disse que seus pais foram visitar um casal de amigos chineses em uma cidade do interior. Ao chegar na cidade, eles foram orientados a não sair da casa do casal, pois estrangeiros na cidade poderia chamar a atenção das autoridades comunistas e eles poderiam ir atrás do casal para tentar descobrir o motivo daqueles estrangeiros estarem lá.

“Mesmo que você não faça nada de errado, você pode ser um alvo e uma ‘possível ameaça à paz social’ em certas regiões”, disse a brasileira.

Transformações na China

Nas últimas duas décadas, a China passou por grandes transformações. A primeira grande mudança que Karina observou no país foi um pouco antes das Olimpíadas de 2008.

“Até então, a China parecia um país pobre. Antes das Olimpíadas resolveram limpar e maquiar parte da China; favelinhas foram demolidas e muitos pobres foram tirados de suas casas e levados para outras regiões, lugares distantes onde não poderiam ‘enfeiar’ a cidade”, contou Karina.

“Foi mais ou menos nessa época que o nível de vida das pessoas deu um salto. Talvez aquela nova maquiagem e a nova imagem das cidades já era um reflexo do que a China estava se transformando economicamente”, acrescentou.

Em 2012, entrou o novo Presidente, Xi Jinping, e aí novas mudanças ocorreram segundo a brasileira. Mas dessa vez foram mudanças políticas.

“O novo presidente queria reforçar os ensinos comunistas nas escolas e universidades. E em diversas ocasiões ele deixou claro que a China deveria voltar aos modelos da era de Mao Tsé-tung. Com isso, ele reforçou o patriotismo através da doutrinação e suas novas leis”, explicou Karina.

Nesse mesmo período, a tecnologia no país se desenvolveu rapidamente e passou a fazer parte do dia a dia dos chineses. Desde pagamento através do WeChat – rede social mais popular na China – até mesmo o controle de infectados durante a pandemia.

“Em muitos estabelecimentos não se aceita mais dinheiro, apenas pagamento por App. O controle passou a ser absurdo, todas as compras, pedidos de ‘delivery’ [entrega] e tudo que você puder imaginar passou a ser feito através dessas plataformas que todos, sem exceção, usam”, disse Karina.

“Por um lado, a tecnologia facilitou a vida das pessoas. Por outro, o chinês dificilmente conseguirá ficar fora do radar já que cada passo deixa um rastro digital”, acrescentou.

Eleições na China

Questionada sobre o sistema eleitoral, Karina explicou que não existem eleições diretas na China, a não ser eleições para síndico, líder de aldeia, vilas e pequenas cidades. Estes líderes, por sua vez, elegem o próximo nível da hierarquia e assim por diante, até o Congresso Nacional do Povo.

“O Presidente da China e o Conselho de Estado são eleitos pelo Congresso Nacional do Povo, constituído por 2.980 pessoas de 9 partidos. Deste total de 2.980, apenas cerca de 800 pessoas fazem parte dos outros 8 partidos, logo, o Partido Comunista Chinês ocupa mais de 2.100 cadeiras”, explicou Karina.

Na prática, a brasileira afirma que apenas um partido governa, o Partido Comunista Chinês e pouquíssimo se fala a respeito dos outros partidos.

“Os meus conhecidos chineses pouco falavam sobre política e raramente opinavam. Outra curiosidade é que o Presidente da China é o líder do Partido Comunista Chinês, isso vem ocorrendo há algumas décadas”, disse Karina.

Cristãos na China

Karina disse que na China, o governo do Partido Comunista Chinês não quer que as pessoas se aproximem de religiões como FaLun Gong, islamismo, cristianismo, budismo, pois essas crenças representam uma possibilidade de risco ou ameaça ao regime comunista.

“Por toda a cidade existem cartazes pregando contra religiões e seitas e a favor do Partido e da ciência. Está sendo ensinado que o Partido é a religião que deve ser seguida. O governo alerta as pessoas sobre a prática de religião, mostrando que elas podem ser perigosas e as pessoas podem ser enganadas facilmente. Entretanto, segundo o artigo 2 da  Lei da Religião na China, todos os cidadãos têm ‘liberdade religiosa’. Aliás, na China, teoricamente, todos têm liberdade de pensamento, de expressão, de fé”, disse Karina.

“Um cristão pode exercer sua fé  com total liberdade desde que não influencie ninguém, não pregue, não ore em público, não faça cultos ou estudos bíblicos em casa, não promova nem assista cultos online, não realize ações fora de templos oficiais, não frequente cultos em templos quando estiver fora da China nem compre bíblias (físicas ou digitais), enquanto o governo não finaliza o processo de revisão para que fiquem com os ensinamentos alinhados com o Partido. O restante é permitido. No meu vídeo sobre perseguição religiosa, eu cito sobre esse processo de ‘revisão’ da Bíblia que o Partido está fazendo, a fim de alterar trechos bíblicos que vão de encontro aos ensinamentos do Partido Comunista”, continuou.

Ela acrescentou em tom de ironia: “Como você pode ver, os chineses têm liberdade de professar sua fé, existem apenas ‘algumas restrições’”.

Karina alerta que esse controle do Estado chinês é gradual. “Em cidades mais internacionais, o controle ainda não está extremo assim, eles [o PCC] não chamam atenção desnecessária”, disse a brasileira.

Karina disse que para o povo comum chinês – ela já ouvi muitos deles dizerem – o “cristianismo é uma religião do ocidente”. Segundo a brasileira, pouco se fala sobre o assunto entre eles e na maioria das vezes, os chineses não se mostram muito interessados em saber mais.

“Talvez eles enxerguem o cristianismo da mesma forma que enxergamos o budismo, uma religião de terras distantes. Existem templos budistas no Brasil, mas essa religião não afeta o dia a dia da maioria dos brasileiros. Eles também não veem problema com outras religiões, para falar a verdade, eles se incomodam mais com diferentes regimes políticos. Quando eu era criança, vários colegas me perguntavam se eu era fascista e por muito tempo não entendi a pergunta”, disse Karina.

“Para muitos, a religião deles é o Partido [Partido Comunista Chinês], para outros, a religião deles é o dinheiro. Ao meu ver, para o povo, desde que cada um viva ‘no seu quadrado’, praticando sua fé sem incomodar, não há problema algum. Mas eles não buscam aprender sobre religiões. Talvez seja a falta de tempo, afinal, estão sempre estudando, trabalhando e correndo atrás de dinheiro”, explicou.

A brasileira disse que conheceu muitos cristãos chineses lá. Karina contou que em 2010 já havia mais de 67 milhões de chineses cristãos oficialmente no país.

“Se alguém perguntasse, eles respondiam que eram cristãos. Eles não tinham medo de falar sobre a fé deles”, disse Karina.

Na China, as igrejas são divididas em 3 tipos, segundo a brasileira. Há a Igreja oficial do governo, que os chineses podem frequentar. Nessa, tudo é controlado pelo governo comunista e os pastores são funcionários públicos que são obrigados a fazer um seminário dado pelo próprio Estado.

Tudo passa pelo crivo do governo. Na cidade onde Karina morou durante 10 anos, ela lembra de ter visto vários templos.

“Na igreja no centro da cidade onde morávamos, havia câmeras instaladas no interior, uma sala de monitoramento e um policial monitorando tudo”, lembrou Karina.

O segundo tipo de igreja na China são as igrejas clandestinas, também conhecidas como igreja nas casas, igreja subterrânea ou igrejas perseguidas. São grupos de pessoas que se juntam para realizar culto e estudo caseiro. E de acordo com Karina, isso é crime no país.

E o último tipo são as igrejas internacionais, única e exclusivamente para estrangeiros, chineses casados com estrangeiros e chineses adotados por estrangeiros.

“O governo quase não se mete e os membros têm total liberdade para realizar o que desejarem dentro do templo. A igreja pode pedir o passaporte de asiáticos para confirmar se estes se enquadram em um dos critérios acima sob o risco de sofrerem consequências (como os líderes serem deportados) caso permitam a entrada de chineses que não deveriam estar ali”, disse Karina.

Karina soube de vários casos de perseguições a cristãos chineses. Ela conheceu um chinês que foi preso por pregar sem ter feito o seminário do governo comunista.

Ele ficou preso durante 6 meses e quando saiu fez o seminário. Ao se formar, o governo deu uma igreja para ele cuidar. O engraçado é que ele não podia frequentar todos os cultos e eventos, pois havia uma funcionária do governo que estava presente para registrar tudo, inclusive a assiduidade do pastor. Ir à igreja com muita frequência poderia significar que ele estava dando muita importância àqueles ensinamentos e poderia gerar preocupação nas autoridades”, contou Karina.

“Conheci outra chinesa que durante um culto caseiro, a polícia bateu em sua porta e questionou o que estava acontecendo, pois, um vizinho havia dedurado eles. Ela rapidamente pensou em uma resposta e disse que estava ensinando música para os ‘alunos’ presentes, mostrou seu certificado na área e dispensou os policiais. Muitos pastores chineses recebem treinamento de fuga, aprendem a pular de prédio, fugir por janelas para despistar a polícia que aparece em cultos caseiros onde eles estão ministrando”, disse a brasileira.

Os Uigures de Xinjiang

O povo uigur é uma minoria étnico-religiosa muçulmana que vive na região autônoma de Xinjiang ou Sinquião, no Noroeste da China e quer sua independência da China. E esta busca pela independência é a razão principal da perseguição e controle sob os uigures. As graves violações de direitos humanos que os uigures sofrem na China estão sendo denunciadas pela comunidade internacional. Entre estas violações estão sequestros e detenções em campos de trabalho forçado ou campos de doutrinação; abortos forçados, esterilização em massa e torturas.

“A religião é usada apenas como ‘desculpa’ para justificar o que está acontecendo. Em nome da ‘paz’ e do ‘antiterrorismo’ o governo chinês realiza os atos que ouvimos falar. O medo de uma revolta e manifestação é maior do que o medo de ataques terroristas”, explica Karina.

O Estado chinês usa de várias estratégias para controlar a província. Segundo Karina, além das câmeras de reconhecimento facial instaladas em toda a província, esse povo está tendo que obedecer à novas leis do Partido. Os homens não podem mais usar barba, mulheres não podem usar burca, as orações diárias foram proibidas, assim como muitas outras práticas religiosas.

“Uma das poucas práticas ainda permitidas são as práticas alimentares (ex: muçulmanos não comem carne de porco e não bebem). Além disso, o deslocamento populacional também está acontecendo. Funcionários públicos da etnia “Han” estão sendo enviados para popular esses locais (Xinjiang e Tibete), casar com povos locais e levar a cultura deles para estes povos distantes”, disse Karina.

“Tive uma professora na faculdade que era original do Tibete. O marido dela era do povo Han, os dois se casaram e ele a levou para morar em outra província”, acrescentou.

Karina não conheceu essa região nem ninguém dessa região pessoalmente. Mas ela disse que conheceu brasileiros que moraram na região e saíram por se sentirem pressionados, e tiveram até mesmo seus lixos vasculhados de vez em quando.

Filhos, aborto, tráfico humano e prostituição infantil

Segundo a brasileira, a ‘Política do Filho Único’ na China não foi um programa de incentivo, mas uma lei imposta para reduzir a população chinesa que já passava de seu primeiro bilhão na década de 70. Os abortos passaram a ser permitidos, legais e incentivados no país. E a China foi ainda além, tornando o aborto obrigatório na maioria dos casos em que  a mulher engravidava do segundo filho, exceto em algumas regiões onde “bastava” pagar uma multa que variava entre algumas centenas de dólares e centenas de milhares, dependendo da renda da família.

“Como a Política do Filho Único durou quase 40 anos, muitos se acostumaram e até preferem ter apenas um filho. O governo teve parte em influenciar as pessoas a pensarem que era a melhor solução. Através de cartazes de propaganda, mostravam que com mais de 1 filho certamente haveria brigas e conflitos por causa da herança. Foi ensinado que a família ideal era composta por: pai, mãe e um filho. Quando muitas mães começaram a abortar seus bebês ao descobrirem que estavam esperando uma menina, as propagandas começaram a retratar a família feliz como a família composta por: pai, mãe e uma filha. E com isso, os médicos passaram a ser proibidos de anunciar o sexo do bebê antes do nascimento”, disse Karina.

E no caso de meninas, Karina disse que quando elas se casam, passam a morar na casa dos pais do marido. Os filhos deles carregam o sobrenome do pai (isso é tradição, não é lei). Então, para terem seus filhos por perto na velhice, os pais preferem ter filho homem. Isso gerou além do aborto de meninas um novo fenômeno: muitos homens para poucas mulheres, logo, as mulheres ficaram muito exigentes ao escolherem um marido. Esse novo problema gerou também um aumento no tráfico de meninas e mulheres de países vizinhos da China. Uma reportagem da AP, mostram que pelo menos 629 meninas e mulheres do Paquistão foram vendidas como noivas a homens chineses e levadas para a China de 2018 e até abril de 2019. Outros países de onde essas meninas e mulheres são traficadas como escravas sexuais para a China são Coreia do Norte, Myanmar, Vietnã, Camboja, Laos, Filipinas e Mongólia.

O tráfico humano e a prostituição infantil são sérios problemas no país e pouco está sendo feito para combater esses terríveis crimes na China. Karina disse que mais de 20 mil crianças chinesas são sequestradas por ano.

“Há muitas filmagens de crianças chineses sendo sequestradas, muitas vezes na frente dos pais. A maior parte dessas crianças não são encontradas e há diversas teorias do que é feito com elas. Alguns compradores não sabem sequer que isso é um crime e como ninguém questiona nem denuncia, quando uma criança aparece misteriosamente, o crime compensa”, contou a brasileira.

“Por exemplo, eu já assisti um documentário que contava sobre camponeses que encomendavam crianças porque, pela lei, não podiam ter mais filhos e precisavam de mão de obra para trabalhar na lavoura ou simplesmente para garantir que o filho(a) teria um casamento garantido. Mas eles não questionavam a procedência dessa criança e não demonstravam saber que estavam encomendando o sequestro dessa criança”, disse Karina.

Em 2015, passou a ser permitido que todas as famílias tivessem 2 filhos e em alguns casos 3. As propagandas também mudaram e começaram a retratar que com mais filhos, seria mais fácil cuidar dos idosos na velhice. Mas por causa de anos de ‘normalização’ do aborto na China, ele acabou se tornando cultural e hoje é tratado na China como um assunto do dia a dia, de acordo com Karina.

“Para a chinesa[o aborto] é como arrancar um dente. É permitido em qualquer caso e não é tabu. Minhas colegas e conhecidas realizavam e falavam abertamente sobre o que tinham feito. Diziam que sentiam um pouco de culpa, mas que era necessário pois elas ainda eram jovens demais para ter filho. Nem passava pela cabeça delas manter o bebê e nunca conheci uma jovem universitária grávida, afinal, as mulheres só podem se casar aos 20 anos e os homens aos 22”, disse a brasileira.

Karina contou que na maioria dos casos o feto abortado é descartado. Mas existem “produtos” dos procedimentos que são vendidos e consumidos.

“A professora da minha mãe conta que quando ela teve seu filho no hospital, o médico cirurgião ao realizar a cesárea e ver sua placenta comentou: ‘essa é da boa, essa é pra mim’. E uma professora minha comentou que quando sua irmã nasceu, sua mãe preparou a placenta e comeu. Ouvi isso sendo comentado várias vezes. Entretanto, muitos chineses se envergonham de falar sobre os outros produtos consumidos, em alguns casos, as próprias mães ou hospitais vendem o “produto” para clínicas de pesquisa e tratamento com células tronco e até restaurantes medicinais”, disse Karina.

Karina informou que – para aqueles que ‘tiverem estômago forte’ – há imagens na internet que mostram esse ‘costume’ de comer fetos na China. Ela explicou que no país há a crença de que ‘comer fetos’ pode prevenir a impotência sexual.

A Brasileira disse que bebês com deficiência também são vítimas do aborto no país. Muitos são abortados porque a deficiência é vista na China como uma ‘vergonha’ para a família.

“Uma família de estrangeiros teve um bebê na China, o bebê era saudável, até que durante o parto, por erro médico, o bebê sofreu lesões na coluna e ficou tetraplégico, além de não conseguir respirar. Ele ficou durante 3 anos ligado em aparelhos e vivendo no hospital. A orientação dos médicos era de simplesmente desligar os aparelhos, pois os gastos do hospital e dos pais eram muito altos. Mas a família se recusou. Quando os pais fazem questão de ficar com a criança, eles escondem da sociedade pois não querem ver seu filho sofrendo preconceito também. Não me lembro de ter visto nenhum um chinês deficiente na China”, disse Karina.

Coronavírus

Karina contou que a pandemia de coronavírus trouxe consequências para o povo chinês. Milhões foram isolados em cidades, milhões foram impedidos de passar o Ano Novo chinês (final de janeiro) com suas famílias e praticamente todos tiveram que passar por uma quarentena intensa. Durante o período mais intensivo da quarentena, algumas autoridades locais selavam a porta de residências para identificar eventuais moradores que tentasse quebrar a quarentena. Depois da quarentena, em muitas cidades, apenas um membro da família podia sair de casa 3 vezes por semana para fazer compras por tempo limitado.

De acordo com a brasileira, quanto ao reflexo financeiro pessoal, os chineses, em sua grande maioria têm dinheiro guardado. Então, eles tinham gordura para queimar.

“O governo não precisou criar plano de auxílio emergencial. Muitos conhecidos meus na China viram esse momento como uma oportunidade para ganhar dinheiro vendendo máscaras para o exterior. Alguns entraram em contato comigo para apresentar a ideia e plano de negócio. Eles não acreditam que o vírus surgiu na China e não adianta discutir. Ouvi diversas teorias por parte deles que o vírus surgiu na Itália ou que foi implantado na China pelo exército americano”, disse Karina.

Quanto aos cristãos chineses perseguidos, durante a pandemia, ela disse que os cultos online foram proibidos e os presenciais já estavam suspensos.

Como o Estado chinês exige lealdade do povo, protestos e críticas contra o governo são proibidos. Na China Continental, existem 46 infrações elegíveis para a pena de morte. Segundo a brasileira, algumas destas são: “covardia”, “insubordinação” e  “traição”, ou seja, a ‘deslealdade’ de um cidadão à sua pátria. Entretanto, o significado de “traição” na China pode ser diferente, o simples fato de falar mal, discordar do governo ou apoiar quem eles consideram inimigo pode ser considerado “traição”.

“A lei na China existe, mas muitas vezes ela não é clara. Quando não se tem uma definição do que é ‘traição’, ‘insubordinação’ ou ‘covardia’, a imaginação e a vontade própria passam a traçar o limite. Quando eu digo que eu não posso mais voltar para a China é porque eu posso ser acusada de diversas coisas, basta ter alguém insatisfeito com o os meus relatos”, explicou Karina.

Ela disse que alguns jornalistas independentes sumiram depois de mostrar a real situação de hospitais e crematórios durante o pico da pandemia na China, pois o que eles mostravam ia contra o que o governo comunista passava para o exterior.

“Além destes jornalistas, médicos que tentaram alertar sobre os primeiros casos também foram silenciados. Por exemplo, lembro de no começo da pandemia ter assistido um vídeo onde a pessoa relatava que alguns médicos foram obrigados a assinar um termo concordando em parar de espalhar ‘fake news’ (a existência do vírus)”, lembrou Karina.

Estrangeiro na China

A brasileira explicou que antes do estrangeiro ir à China, ele deve solicitar o visto informando tudo que fará e onde irá. Ao chegar na China, se o turista ficar em um hotel (não são todos os hotéis que aceitam estrangeiros) o hotel registra o estrangeiro na polícia local, enviando a cópia do passaporte e informações básicas.  Caso o estrangeiro opte por não se hospedar em hotel, ele deve ir pessoalmente à polícia se registrar dentro de 24 horas ao chegar na China. Caso isso não aconteça, há grandes chances da polícia local bater na porta e procurar saber quem você é e o que está fazendo ali.

Como residente, é preciso fazer o mesmo registro, você preenche alguns papéis com informações básicas (nome completo, número de passaporte, endereço na China, contato na China, profissão, nacionalidade, data de entrada e saída, tipo de acomodação e uma foto). Se o residente mudar de endereço ou sair da China, ao retornar ele precisa passar pelo mesmo processo.

“Desde que saí de vez da China, voltei uma vez em 2017. Fiquei apenas em Pequim e na região metropolitana, mas tudo estava mais rígido e complicado para turistas. Ao entrar em qualquer ponto turístico, tínhamos que mostrar o passaporte, a cidade ficou menos internacional. Em resumo, se o turista não soubesse Chinês, seria difícil se virar. A cidade parecia estar muito bem preparada para receber turistas chineses, mas não estrangeiros. Muitos lugares não aceitavam mais dinheiro, apenas pagamento pelo WeChat. Táxis e didi (uber chinês) só aceitavam corrida com pagamento pelo tal App”, disse Karina.

Karina explicou que o fato de muitos lugares e serviços na China só aceitarem pagamentos pelo WeChat dificultou a vida dos turistas, pois um estrangeiro não consegue depositar dinheiro nesse App sem possuir uma conta bancária chinesa.

Ela contou que em 2017 percebeu que as propagandas políticas em outdoors também aumentaram e por toda a cidade se via o rosto de Xi Jinping.

“Quando cheguei no aeroporto, estavam com meu nome em uma lista e me chamaram para um interrogatório, abriram minha mala, fizeram umas 20 perguntas de por que eu estava lá, onde eu iria, com quem eu iria me encontrar. Depois me liberaram. Até então, estava tudo normal, afinal, qualquer um pode ser interrogado em qualquer aeroporto”, disse Karina.

“Em um dos nossos passeios, encontramos uma mulher muito simpática que nos ofereceu carona paga para nosso hotel. Já que nenhum táxi ou uber nos aceitava, era uma boa opção. Naquele dia, não fomos com ela pois ainda queríamos passear pela cidade. No dia seguinte, encontramos ela novamente. Ela estava na porta de outro local turístico onde estávamos e, dessa vez, aceitamos andar no carro dela. Eu não me toquei que a ‘coincidência’ era grande demais, afinal, era uma cidade de mais de 20 milhões de habitantes. A mulher fazia muitas perguntas e parecia estar muito interessada em nós. Fomos para a região metropolitana de Pequim e 2 dias antes de eu ir embora, ela entrou em contato comigo oferecendo carro para me levar ao aeroporto, aceitei. O engraçado é que ao chegar no aeroporto, o motorista entrou comigo, aguardou até meu check-in abrir e eu entregar as malas para ir embora. Ao chegar no Brasil, uma das minhas redes sociais chineses nunca mais funcionou, a conta simplesmente deixou de existir. Às vezes me pego pensando se aquela mulher e o motorista não estavam lá para me acompanhar e certificar que eu estava realmente saindo da China”, contou Karina.

A propaganda do Partido

Segundo Karina, os maiores canais da TV chinesa (CCTV 1-12) são estatais e nada pode ser exibido sem o aval do Estado. E o mesmo acontece com qualquer outro canal de televisão no país.

“Uma vez presenciamos um confronto entre policiais e caminhoneiros no nosso bairro. A polícia quebrou o vidro dos caminhões e, mais tarde, quando assistimos a notícia pela TV, contaram uma história diferente. Segundo a reportagem, não se sabe como o conflito começou entre os moradores do local e nem quem havia quebrado os vidros, mas logo a polícia apareceu e apaziguou a situação”, disse Karina.

“Outra vez, os competidores de um concurso da língua chinesa do qual eu participei haviam citado várias vezes a palavra ‘ladrão’ durante as provas de contar histórias e aquilo não poderia ser exibido no ar. Eles tiveram que refazer a prova com outra história sem a palavra ‘ladrão’. O engraçado é que o que os comentários gravados dos jurados sobre a prova não mudaram. Eles exibiram os mesmos comentários referente à primeira prova de quando o candidato mencionava a palavra ‘ladrão’”, contou a brasileira.

“No YouTube também há contas de atores, cantores ou simplesmente YouTubers que são mantidas por algumas agências com a permissão do governo chinês, pois eles querem espalhar a cultura chinesa pelo mundo. O maior canal de YouTube chinês se chama ‘李子柒 Liziqi’ e mostra o dia a dia de uma garota que mora no interior, passa seus dias cozinhando, preparando chá, tingindo suas roupas com frutinhas e florzinhas que colhe no campo. No fim do dia ela canta e toca seu violão ao lado da fogueira e debaixo do luar. O que eles mostram é um lado totalmente produzido e maquiado, a China rural é bem diferente”, disse Karina.

Volta à China

Questionada sobre a possibilidade de voltar a morar algum dia na China, Karina respondeu que só voltaria se tivesse a certeza que não correria nenhum perigo pelo que ela relata em seu canal de YouTube e em entrevistas que dá. Mesmo assim, ela guarda boas lembranças do país e do povo chinês.

“A China é um país incrível, excelente lugar para se visitar e com pessoas maravilhosas. Infelizmente, estamos acostumados a ver pessoas associando a China apenas ao regime comunista. É preciso entender que povo chinês e o seu governo não são a mesma coisa”, enfatizou Karina.

Para conhecer o trabalho de Karina e saber mais sobre a cultura chinesa milenar e sua sociedade e aprender o Mandarim, você pode acompanhar a brasileira nas plataformas sociais: YouTube neste link e Instagram neste link. Seu e-mail de contato é [email protected] .