Análise | A Medicina da Rússia e sua vacina da COVID-19

Por Marcelo Hermes-Lima (1) e Luciano Dias Azevedo (2)

1: Professor de Bioquímica da UnB, Presidente do Docentes pela Liberdade (DPL)
2: Anestesiologista, Diretor de Saúde e Medicina do DPL

[Em tempo: O artigo  faz parte de um esforço do movimento Docentes pela Liberdade (DPL) em trazer pensadores competentes e capazes de agregar análises relevantes para o cenário nacional. As opiniões expressas na análise não reproduzem, necessariamente, as posições do DPL ou Conexão Política.]

Tem sido muito debatido na imprensa os testes sobre a vacina Russa da COVID, e se espera que seja a primeira do mundo a ser colocada em uso, inclusive pelo estado do Paraná. Apesar de não sermos imunologistas, não é preciso excessiva habilidade para avaliar o desenvolvimento desta vacina em aspectos clínicos. A vacina desenvolvida em menor tempo em toda história da humanidade foi feita pelo microbiologista Maurice Hilleman (1919-2005), que produziu a vacina da caxumba e obteve licença para uso em saúde pública no prazo de 7 anos.

A história da medicina já nos deu protocolos bastante seguros para desenvolvimento de novas vacinas e o tempo médio de desenvolvimento dessa terapia varia entre 10 a 15 anos, uma vez que os cientistas antes de provarem sua eficácia contra o patógeno, precisam garantir sua segurança a quem será inoculado com a mesma.

É inadmissível causar dano a uma pessoa SAUDÁVEL inoculando uma substância para protegê-la de um possível contato com um agente infeccioso que tem certa probabilidade de desencadear uma doença. Por isso os protocolos de segurança em desenvolvimento de vacinas são tão rigorosos e demoramos tanto tempo para desenvolvê-las. Garantir SEGURANÇA vem antes de garantir eficácia.

Falando em vacinas para SARS COV, estudos para desenvolver uma vacina para o Sars Cov “1” ao longo de décadas ocorreu sem sucesso, pois as cobaias animais vacinadas sempre desencadeavam uma resposta pior que as não vacinadas quando em contato com o patógeno.

Já sabemos que a COVID-19 tem uma letalidade populacional em torno de 0,2%. Sabemos também que o vírus Sars Cov 2 tem algo em torno de 80% de semelhança com o Sars Cov “1” e que ele nada mais é que um gatilho para uma doença autoimune e trombofílica de extrema agressividade para uma pequena parcela da população susceptível à sua ação. Infelizmente ainda não conhecemos esse vírus suficientemente para determinarmos todas as formas em que age como gatilho para a doença autoimune, não tivemos tempo de mapear em sua ação no corpo humano a nível celular.  Ou seja, inocular uma vacina sem o tempo devido de testes para garantir SEGURANÇA nessa doença pode significar inocularmos algo que gere o desencadeamento da mesma resposta de autoimunidade exacerbada em quem jamais teria contato com o vírus. E esse é o principal ponto de questionamento de todas as autoridades sérias não envolvidas em conflitos de interesses econômico financeiros no planeta hoje em relação à essa corrida pela primeira vacina contra Sars Cov 2.

Em relação à ciência médica Russa, podemos avaliar o seu impacto em relação ao resto do mundo. O impacto é diferente da quantidade de publicações. Assim, a Rússia está 19º lugar do mundo em quantidade de artigos de Medicina. Apresentou em 2018 a marca de 13 mil publicações em periódicos médicos indexados na plataforma Scimago/Scopus. E o impacto da pesquisa médica russa?

O impacto das publicações científicas é determinado em citações por publicação (CPP), e qual seu valor percentual em relação ao primeiro lugar do mundo em CPP. Avaliando toda a área de Medicina de forma agregada, entre países com pelo menos 2000 publicações, podemos fazer um ranking de 50 países. Para 2018 o primeiro colocado é a Bélgica, com CPP = 5,94 (ou seja, cada publicação de 2018 produziu 5,94 citações). Nesse ranking o Brasil está em 43º lugar, com CPP = 2,92. A Rússia está em 49º lugar no ranking de impacto (penúltimo colocado), com CPP = 2,17, com apenas 36,5% do impacto da Bélgica.

Mas podemos também analisar diversas áreas da Medicina e verificar a posição da Rússia em rankings de impacto. Nesse sentido, a tabela a seguir mostra 30 áreas médicas e a posição russa. Vamos dar um exemplo. Em Cardiologia, entre 30 países com pelo menos 200 publicações em 2018 (o “corte” está marcado como “cut-off” na tabela), a Rússia está em 26º lugar em impacto. Por outro lado, em Infectologia, está em 47º lugar entre 47 países com 200 publicações, ou seja, em último lugar.

Ao analisar as 30 áreas da Medicina, verificamos que a Rússia está em último, penúltimo ou antepenúltimo lugar em 25 áreas (83% das áreas analisadas). A última posição aconteceu em 14 áreas médicas. Não se saiu tão mal em Cardiologia, Anestesiologia, Medicina Intensiva e Hematologia. Apenas em Microbiologia Médica apresentou uma posição intermediária (27º lugar entre 43 países), mesmo assim abaixo dos 50% primeiros colocados da listagem.

As áreas da Medicina da Rússia podem também ser comparadas com as do Brasil, utilizando a metodologia de cientometria do Rank Score. Esse método dá nota dez ao 1º colocado no ranking e zero para o último. Os detalhes desse método estão na publicação acadêmica de Almeida e colaboradores (2020). A Medicina do Brasil não é uma “Brastemp”, mas está com notas melhores que as da Rússia em 29 áreas médicas.

Se analisamos a grande área de Microbiologia e Imunologia (não faz parte da grande área de Medicina), entre 43 países com ao menos 400 publicações em 2018, a Rússia ficou em último lugar, com CPP=2,38, ou seja, Rank Score igual a zero. O Brasil ficou em 36º lugar, significando Rank score de 1,63. O primeiro colocado em impacto nessa área – e bem distante da Rússia – foi a Dinamarca, com CPP=7,13.

Desejamos que a ciência médica (lembrando que pesquisadores de vários países estão desenvolvendo vacinas) consiga desenvolver antivirais eficazes contra o Sars Cov 2. E que também, para esse coronavírus, tenha sucesso em desenvolver uma vacina que seja realmente segura ainda nesta década.

Como reflexão final, analisando os dados cientométricos da pesquisa médica russa, assim como o mecanismo de ação desse vírus, e também pensando nos protocolos já bem estipulados de desenvolvimentos de vacinas com segurança, fica a seguinte pergunta: o que podemos esperar da vacina russa?